Arte na pele

20/06/2010

(6) Comentários

Lembram do post da minha tattoo? Pois bem, a pedidos fiz uma entrevista com meu tatuador – quem lê pensa que tenho várias, mas por enquanto só tenho uma – onde ele conta parte de sua vida de tatuador e dá dicas sobre tatuagem.

1 – Há quanto tempo tatua?

Tive contato direto com a tatuagem há 13 anos, sendo cinco destes profissionalmente.

2 – Quando e como começou o interesse para desenhar?

Não sei ao certo quando, pois tenho vários “flashs” de várias etapas da minha vida, onde me deparava com desenhos. Era muito constante isso, via minha mãe desenhar roupas em casa e tentava imitar, via minhas tias pintando pano de prato, até ajudava a pintar, via meu pai desenhando animais e esculpindo em argila vários deles. Lembro de sempre estar criando algo, pintando, desenhando, arrumando algo com meu pai. Lembro que a maioria das casas que morava eu pintava as paredes com desenhos… rsrsr. Creio que a imagem mais marcante de desenho pra mim, vem de minha avó. Morávamos em um sítio no interior de São Paulo, então quando chegavam os parentes da cidade, ela pegava uma folha com lápis e me mandava desenhar animais da fazenda para os outros primos. Então o desenho foi uma coisa natural, não tive “aquele” momento de parar e ir desenhar, sofria influência por todos os lados.

3 – Como foi chegar na tatuagem?

Onde morava em São Paulo, essa cultura de tatuagem era mais intensa, mas sempre admirei por ser desenho e não pela arte da tatuagem em si. Foi em Caicó-RN que descobri a arte de desenhar na pele, foi através de um grande amigo chamado Death (vulgo Dr. Márcio Leonardo. J) .Fazíamos o segundo ano do ensino médio na época que me apresentou a máquina de tatuar, mostrou um protótipo caseiro, com motorzinho de carrinho a pilha, lembro-me bem que nos intervalos do CEJA, sempre conversávamos sobre tatuagens, desenhos, taekwondo e rock. A partir desse protótipo desenvolvemos, digamos, uma máquina super caseira com um motor um pouco mais potente. Não cobrava pelas tatuagens, fazia por gostar muito daquilo. Pedia pra trazerem o material, era tipo um mini kit, composto por um par de luvas, agulhas de mão numero 12, vaselina, tinta nanquim e papel toalha. Com esse material eu fiz as primeiras tatuagens em amigos, conhecidos e todo mundo que aparecia. E, acreditem, aparecia muita gente pra ser cobaia. Também tive outro amigo, o Guilherme, que me deu alguns toques sobre tattoo, pois o mesmo já tatuava, mas nada profissional. Eram outros tempos, outra visão sobre tattoo. E dente outras atividades que eu exercia sempre tinha a tatuagem como um hobby, um momento de fazer algo que gostava muito, desenhar.

4 – Qual foi sua primeira tatuagem em alguém?

Minha primeira tatuagem em pele viva foi em mim mesmo, onde fiz o nome taekwondo em coreano no meu pé. Profissionalmente foi em uma amiga chamada Priscila, foi um rosto mangá, nunca tinha visto uma máquina de tatuar profissional de verdade antes. Minha primeira maquina profissional foi de um kit, que quando recebi não sabia nem como montar a máquina, pois só havia tatuado com caseiras. Fui pro Google e resolvi meu problema. rsrssrsr. A internet foi meu grande professor.

5 – Como foi se transformar num profissional de tatuagem?

Sempre tive a tatuagem como um lazer. Paralelo as minhas tatuagens, eu dava aula de taekwondo, hidroginástica, aeróbica, natação.. etc. Tinha uma rotina de educador físico, mais voltado pra artes marciais. Finais de semana tatuava em minha casa ou em casa de amigos, foi quando por incentivo comecei a investir na carreira de tatuador. Montei meu primeiro estúdio na sala de casa, investi em material de melhor qualidade, cai de cabeça no estudo da arte, estudando desenho, parte técnicas e procedimentos. Comecei a pesquisar mais na internet, participando de fóruns de discussão, com outros profissionais mais veteranos. Indo pra eventos pelo país todo, pra ir de encontro aos melhores profissionais, e aprender um pouquinho. Orgulho-me em dizer que sou autodidata, foi muito complicado e difícil aprender sem professor, mas valeu a pena.

6 – Quais dificuldades sofreu e se teve preconceitos de alguém ou até mesmo de familiares?

Dificuldades foram inúmeras, desde você mesmo até dos que te rodeiam. Surgiram várias dúvidas no sentido de avaliar se valeria mesmo a pena investir naquilo, se valeria a pena ir contra a cultura local. Minha família nunca interveio no que eu fazia, sempre estavam ali dando certo ou errado, creio que as dúvidas que eles tinham em relação a essa minha nova atividade eram as mesmas que eu tinha. Mas nunca senti aversão por nenhuma parte, nem família, nem sociedade, pois como tudo que fazia e faço, sempre levo muito a sério. Não precisou de muito tempo pra decidir seguir esse caminho.

7 -Você já se tatuou?

Já sim, me tatuei em cinco momentos, hoje não mais, não quero ter meu corpo cheio de imagens sem nexo pra mim. Sei que terei muitas, muitas mesmoooo, mas cada uma já determinada, estilo, tamanho , local e quem irá fazer. Isso mesmo, quero tatuagens em meu corpo de artistas que eu admiro, quero levar obras de arte em minha pele até meus últimos dias do que faz sentido pra mim.

8 – Quantas tatuagens já fez?

Muitos me fazem essa pergunta e não tenho nem como calcular uma média. Mas chutando por baixo, diria que mais de três mil tatuagens nesses cinco anos de profissão.

9 – Quem foi seu primeiro “cliente”/cobaia?

Cobaia, depois de mim, foi minha ex-namorada Wanda.

10 – Quais foram as primeiras pintura/desenhos?

Como disse anteriormente, não tenho idéia, comecei muito cedo, nasci no meio artístico.

[nggallery id=24]

11 – Quais as tatuagens que tem e como escolheu eles?

Das que tenho(caseiras), gosto da que fiz, no meu pé, nome taekwondo em coreano. O taekwondo foi algo muito importante na minha vida, foi minha base. A qualidade da tatuagem não está ruim, um dia ela passará por uma reforma. Também tenho meu nome em katakana em meu dedo, no pé esquerdo tenho escrito “meu caminho” em chinês, e uma loucura que fiz no braço, um projeto de dragão (ah se arrependimento matasse, rsrsr). Enfim outra época, outra visão sobre tattoos. J Hoje tenho as minhas próximas escolhidas, mas sem pressa.

12 – Qual a tatuagem mais marcante que você já fez em alguém?

Creio que não só pra mim mas para Caicó, onde comecei. Foi um painel de Nossa Senhora de Santana, nas costas inteira de um amigo. E esta Tattoo foi terminada e exposta dentro da feira de exposições da festa da Padroeira da cidade. Imaginem vocês o choque cultural que isso causou. Foi muito bom o impacto, a quebra de tabus. Foi gratificante demais.

13 – Qual a mais esquisita e a parte mais estranha de fazer uma?

Vixe, aparece muita coisa estranha em locais estranhos…rsrsrs

Nem sei o que responder, hoje nada me choca. Pra mim como tatuador tem partes ruins de tatuar, como barriga, pescoço, axila, dentre outras, falo isso tecnicamente, por ser tecidos flexíveis e instáveis .

14 – O que mais gosta de tatuar? E o que menos gosta?

Me preocupo muito com o que tatuar nas pessoas, por isso gosto de ouvir a história, do porque daquela tattoo, pergunto sobre estilo, cores e tudo mais, pra poder montar algo pessoal e único pro cliente. Não me apego a um determinado estilo. Gosto de tatuar tudo, seja trabalhos grandes ou pequenos, coloridos ou preto e cinza, não importa, gosto da arte em si, não de determinados estilos. Admiro quase todos e procuro fazer um pouco de cada, para aprender mais a cada trabalho. E não gosto (abomino) aqueles que vem com uma revista embaixo do braço, falando que quer três estrelinhas no pescoço igual de fulaninha da novela ou de não sei quem do BBB, por favor evitem constrangimento. :P

15 – Que moda mais pegou na tatuagem?

A moda de tattoo bem como qualquer outro produto, é a mídia que faz. Quantas milhares de constelações existem por aí, depois que tops da TV apareceram com as benditas estrelinhas, sem falar nas borboletinhas, coisinhas escritas, é uma infinidade de inhos e inhas. Isso é ridículo. “Ahhh quero fazer uma estrela no ombro porque vi fulano com uma e achei tudo!”. Sinto minhas tripas se contorcerem quando ouço isso. Conto até 10, respiro e argumento . – Me responda: “O que valeria a pena, o que teria um significado tão importante pra você, que fizesse você levar pro resto da sua vida em sua pele?” E na maioria das vezes pego na veia, deixo a pessoa pensativa. Então sou contra isso de moda em tattoo, fujam disso. Tattoo tem que ser única, exclusiva, pessoal, nada de cópias. Lembrando que referencias não são cópias.

16 – Tatuagem desbota?

Sim, isso vem de vários fatores, o principal deles é o tatuador. Se o cara não sabe pigmentar bem a pele, vai ficar falha ou desbotar. Outro fator se refere aos cuidados pós tattoo. Não adianta sair do estúdio com a tattoo bem pigmentada e achar que acabou ali. Existe uma série de cuidados pós procedimento que devem ser seguidos a risca para se obter um bom resultado. Sol também é um grande inimigo da tattoo, aliás, um dos mais agravantes aqui na nossa região. Pode ser a tattoo mais linda, se pegar sol sem a devida proteção, vai ficar feia.

17 – Quais cuidados para que isso não aconteça?

Pra ter uma tattoo bem pigmentada é muito importante escolher um bom profissional e seguir a risca os cuidados que ele lhe recomendar. Mas, antecipando, os cuidados vão desde uma alimentação mais leve a nada banhos de imersão (mar, piscina, lagoa, rio, açude), saunas, sol – nem pensar por 30 dias. Deve-se hidratar bem a pele , e usar muito, muito protetor solar.

18 – De quanto em quanto tempo deve ser retocada?

Depende de cada organismo, fatores internos e externos determinam isso. Por isso não existe um tempo determinado. Cada pele aceita o pigmento de uma forma, e as condições que essa tattoo passará, é oque vai determinar a durabilidade da mesma.

19 – Já houve algum episódio ou história engraçada no studio?

Sempre tem. Mas tem um que me vem sempre à mente quando me perguntam isso. Um dia me entra um cidadão com um estereótipo diferente dos que costumava tatuar, ele pediu pra ver alguns desenhos, e escolheu um tigre. Escolhido o desenho, ele veio me perguntar a forma de pagamento. Quando respondi, ele me perguntou se eu aceitava um “burrego” e eu prontamente respondi que não, mas sem saber o que era. Fiquei encucado, escrevi a palavra em um papel pra pesquisar depois. Mais tarde vim saber que era um filhote de cabra. Me acabei de rir, o cidadão queria trocar a tatuagem num animal vivo! Fico imaginando o que passou pela cabeça dele para propor aquilo. Como diriam os mamonas, “é por isso que eu prefiro as cabritas”, mas não comeria aquele bicho, nem morto, nem vivo.. huahauah

20 – Menor de 18 anos pode se tatuar?

Não. Muitos estúdios ainda tatuam, com os pais assinando ou acompanhando. Eu não tatuo menor em nenhuma hipótese. Tattoo é algo sério demais pra se fazer em uma época de tantas duvidas e mudanças em nossas vidas. Tattoo não é moda, ao contrário do que muitos pensam.

21 – Quais os cuidados antes, durante e depois de se fazer uma tatuagem?

Antes: Escolher muito bem o profissional. Não economize tempo nessa pesquisa, para saber quem fará o seu trabalho o qual levará para o resto da vida. Não economize se tiver que atravessar o país pra fazer sua tattoo com o profissional que você escolheu, isso faz a grande diferença de você ter uma mancha colorida na pele ou uma obra de arte.

Além disso, é importante estar com a pele íntegra, sem estar queimada pelo sol.

Durante: Mantenha sobre controle a ansiedade, a calma, escute o profissional sobre o processo que ele irá executar , álcool e drogas não ajudam em nada. E, acima de tudo, não se mexa…rsrsrs

Depois: Seguir a risca os cuidados passados pelo profissional.

22 – O preconceito diminuiu nos últimos anos?

Sem dúvida alguma! O preconceito diminuiu e está diminuindo a cada dia e isso se deve a uma quantidade, infelizmente ainda pouca, de profissionais sérios no mercado. Mas essa pouca quantidade faz a diferença e consegue sobrepor a arte em meio a marginalidade a qual a definia há alguns anos atrás.

23 – Quais dicas e conselhos você dá para quem quer fazer uma tatuagem?

Volto a bater na tecla da procura de um bom profissional. Entendam bem: não é porque fulano tem estúdio montado há 10 anos que ele seja um bom profissional. São vários fatores que determinam isso, mas destaco, além do portfólio do tatuador, também vale a pena obter informações com quem já fez trabalho com ele. Saber como ficou depois do procedimento, tirar todas as dúvidas em relação a qualidade técnica do tatuador, se ele desenha bem, se sabe pigmentar a pele bem, se trabalha com segurança, ver que material ele usa, se descartável, se de boa procedência. Uma infinidade de fatores devem ser levados em conta nessa escolha , mas tudo começa com QUEM irá fazer. Escolhendo um bom tatuador o resto flui perfeitamente.

24 – Suas dicas para uma boa tatuagem, considerando que vai ser um desenho eterno na pessoa.

Não siga modinhas, faça o que tem significado pra você, não porque achou bonito em “não sei quem”, ou porque “meus amigos acham isso”. A tattoo é sua! Você quem vai levar na pele! O bom tatuador vai conseguir criar algo pra você, seu, único. Não banalize seu corpo, com inhos e inhas. Não procure preço, pois vai achar! E aquela velha história de quem procura preço, não procura qualidade, não vale a pena em tattoo, só depois de uma tattoo mal feita em sua pele é que você perceberá o quanto isso lhe trará desconforto. Economize em qualquer coisa, menos em tattoo. Não vale a pena.

25 – Quais os seus objetivos como profissional de tatuagem para o futuro?

Sou novo no ramo ainda, cinco anos só, to engatinhando nisso. Mas como disse, levo muito a sério isso de tatuar, sou obstinado no que faço, por isso procuro crescer a cada dia. Aprender todos os dias é um lema vital. Comecei em 2004 em Caicó, 2009 abri meu segundo estúdio em João Pessoa e em 2011 Natal receberá uma nova loja da Don Medeiros. Tenho tatuado, aliás esse era um dos meus planos quando comecei a tatuar: conhecer gente, fazer amizades e rodar o mundo. Aos poucos isso está acontecendo. Tenho agenda fixa em Caicó, João Pessoa, São Paulo e Espanha, e em breve Natal. Acredito que essa expansão está acontecendo de forma natural de boca em boca, cliente a cliente, trabalho a trabalho. Tenho alguns dogmas desde quando comecei que são: não fazer isso pelo dinheiro, satisfação total do cliente, qualidade e exclusividade de trabalhos, respeito e seriedade com os mesmos. O resto é conseqüência.

Meu objetivo maior está focado em desmarginalizar, quebrar tabus, surpreender, mostrar o que é tatuagem de verdade, para assim enxergarem a tattoo da forma que ela é, uma ARTE.

Don Medeiros no Orkut – Perfi 1 , Perfil 2 e Comunidade
www.donmedeiros.com

Raphaela Cavalcanti

SUPER OFF Miss Victoria
A partir de R$37

, , , ,

(6) Comentários para “Arte na pele”

  1. Aléxsia disse:

    Foi muito útil ler essa entrevista. Este ano devo fazer minha primeira tattoo e serviu bastante quanto algumas duvidas que eu tinha (:
    E trocar tatuagem por um burrego é sacanagem né ? HAHAHA

  2. Deny disse:

    Ei, linda, demorei mas botei o link lá no blog, viu!!!
    Essa semana foi super corrida, nem tow postando direito, mas essa semana devo voltar com toda novamente, kkkkkkkkk.
    Bjãoooo

  3. Flavio disse:

    Muito importante os esclarecimentos. Sou muito preconceituoso, e os esclarecimentos da matéria, que li por curiosidade, me fizeram reavaliar alguns pontos. Me surpreendi inclusive com uma opinião que divido com o Dom (o tatuador). Tatuagem é para sempre. Muito útil a entrevista.

  4. Mari Garbo disse:

    Também tenho tatoos e sei a importância dos cuidados,mas a matéria foi ótimas,sempre aprendemos algo que não sabíamos.